Querida avó:
Regressei agora da terra dos coiotes. Não foi por um bom motivo, mas fez-me regressar e só por isso já tem valor. Nunca esperei só te voltar a ver nos últimos dias da tua vida. Quando a Sra.Razman me ligou senti o meu coração parar. Receei chegar tarde demais. De certa forma cheguei mesmo tarde demais, nunca devia ter partido, não da forma como o fiz. Li agora as tuas cartas, todas, de fio a pavio. O Buck está aqui ao meu lado, oscila entre a tristeza profunda e a vontade louca de me lamber. Já nem me lembrava como tinha saudades dele. Calcei as tuas pantufas e vim até aqui, à mesa onde sempre escrevias. Lá fora neva. O jardim morreu contigo, a vida desta casa também. A única coisa que conforta é o cheiro que emana do forno, o bolo de chocolate a cozer naquela velha e ainda um pouco enferrujada forma. Li na carta mas não tinha sido preciso. Lembro-me com toda a nitidez desse particular epsiódio, lembro-me do cheiro do bolo e do seu sabor misturado com as minhas lágrimas salgadas de profunda dor ao aperceber-me que te ia perder um dia. Hoje é esse dia. Sinto-me só neste mundo. Sei que tenho um pai algures pela Turquia, mas isso não me traz qualquer conforto. Não criei raizes em lado nenhum, nem aqui, nem na América, não tenho amigos, nem namorado e o único ser à face da Terra que nutre carinho por mim é um cão velho que não deve tardar em seguir-te. Afastei toda a gente de mim com a minha arrogância e prepotência, com a tal couraça como tu lhe chamas. No entanto, depois de ler as tuas cartas, algo se alterou dentro de mim. De facto, perceber de onde vimos ajuda-nos a saber e a decidir para onde vamos. Foi com estranha cumplicidade e compreensão que li tudo o que passaste nos teus tempos de juventude. Como veio ao mundo a minha mãe, a sua infância, como cresceu. Estranhamente o romance que a trouxe ao mundo foi também o que a destruiu mais tarde. Penso que o teu afastamento causado pela depressão tenham sido fatais para a construção da sua personalidade e forma de agir. Achei-a cruel e corei de vergonha quando me apercebi o quanto me parecia com ela. Viverei de certa forma amargurada para sempre por saber que, tal como a minha mãe, fui tremendamente injusta para contigo. Imagino o teu sofrimento. Peço-te agora desculpa, avó. Mas digo-te também que não somos iguais, eu e a minha mãe. Nunca é tarde demais. Aprendi contigo que a vida não é imutável, que se seguimos uma direcção podemos sempre voltar atrás a meio do caminho. A minha vida era desprovida de sentido, nunca fui melhor na América do que o que fui aqui. Quis fugir, sabes? Quis fazer-te sofrer e mostrar a ti e a mim mesma que não precisava de ti, que tu precisavas mais de mim do que eu de ti. Que tola fui. Foram anos tristes para mim, de puro sofrimento. Não podia voltar, não podia dar a reconhecer o meu falhanço, engolir o meu orgulho. Pensei que não ia sentir a tua falta, se me habituasse à tua ausência nem sequer a tua morte me haveria de custar. Alteraria tudo isso se pudesse. Não posso mudar o passado mas ainda posso alterar o meu futuro. E é por isso que decidi voltar a Itália, vou à América buscar as minhas coisas e voltarei para esta casa. Quando regressar vou ao horto e compro um carvalho que vou plantar no meio do monte. Um carvalho para ti. À medida que escrevo sinto um nervoso miudinho a percorrer-me o corpo. Acredito que seja o meu coração a dizer-me que estou no caminho certo. Vou varrer sempre as folhas no outono e nas tardes de domingo farei um bolo na tua forma e um dia hei-de dá-la à minha filha, assim como as tuas cartas e quando ela me vier dizer, a chorar, que não sabe o que há-de fazer da vida, dirlhe-ei, como tu a mim:
"Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te, e vai para onde ele te levar."
Susana Tamaro - Vai Aonde Te Leva o Coração
Post-Script: Terminei hoje de ler o livro supracitado. Fenomenal na minha opinião. Ficou-me, no entanto, um certo vazio por não saber o que faz a neta depois. Dei voltas e voltas a pensar como poderia descobri-lo até que me lembrei que esta história saiu da cabeça de alguém e por isso eu própria podia imaginar um fim. E melhor ainda, o fim que eu quisesse, ou pelo menos uma espécie de epílogo. A escritora, ao não o fazer, dá-nos essa possibilidade a cada um de nós, de imaginar o fim que quisermos. Este foi o que eu imaginei.