Terça-feira, Maio 29, 2007

*amor*

Quando a minha mãe morreu eu não derramei uma lágrima. Fiquei ali a olhar para ela, a mão do meu pai a apertar a minha, com força demais na minha opinião. Na outra mão um chocolate esmagado, derretido, a sujar os meus dedos. Era pequena, sim. Pequena demais para ficar sem a minha mãe. Somos todos demasiado pequenos quando morre a nossa mãe, mesmo que tenhamos 100 anos. A minha mãe não tinha que morrer. Era uma mãe e as mães não deviam morrer. O meu pai chorava que eu bem o via e bem sentia o seu peito a soluçar, ainda que disfarçadamente. Não sei porque chorava o meu pai, não adianta nada chorar. Pelo menos foi o que sempre me disseram, que a chorar não se conseguia nada. Lembro-me que estranharam o facto de eu não chorar, médicos sem fim viram-me e cada qual debitou a sua teoria. Chocada, diziam uns. Pequena demais para perceber, diziam outros. Baixinho ainda ouvi uma das mulheres da aldeia que não gostava de mim porque eu cortava as couves do campo para dar aos porcos. Insensível. Cuspiu esta palavra com desdém. E eu ouvi, mas apenas eu. Queria lá saber o que ela pensava de mim. Muitos se admiraram por o meu pai me ter levado ao enterro. Olha que a miuda só tem 6 anos, é muito pequena, deixa-a ficar. Mas o meu pai não se ia separar de mim. E então eu fui, com o vestido de veludo verde e o laçarote no cabelo. A mãe adorava aquela roupa. Eu não. O laço magoava-me na cabeça e os sapatos de verniz apertavam-me o dedo mindinho. Mas a mãe gostava e por isso eu fui assim bonita, para ela me ver. Pensei por momentos que se fosse muito bonita, talvez a minha mãe afinal não morresse e quisesse ficar comigo. Que tonta fui. A minha mãe ia muito bonita. Aquele vestido beje com florzinhas azuis sempre lhe ficara bem. Levava flores no cabelo, azuis também, porque eu tinha pedido ao meu pai. Ele não queria mas acabou por ceder. Ninguém me contrariava muito nesses dias que antecederam o funeral. Tadinha da menina, tão pequenina. Não percebia estas palavras. A minha mãe morreu, eu estava viva, mas só ouvia tadinha da menina e nunca tadinha da mãe da menina.
A minha mãe não tinha que morrer mas eu agora sei porque morreu a minha mãe. A minha mãe morreu por amor. A minha mãe morreu para salvar o meu irmão. Porque o meu irmão era o filho dela e porque ela o amava mais do que a vida, como a mim. E por isso, naquele momento em que apenas um podia sobreviver, naquele momento em que houve as complicações que ninguém esperava, a minha mãe morreu. E o meu irmão não. E a minha mãe amava tanto o meu irmão, porque o sentiu na barriga dela a crescer, porque cantava para ele, porque lhe fazia festas, porque o tratava com tanta ternura. Eu amava o meu irmão por esses nove meses de sonhos e brincadeiras. Lembro-me de me sentar no sofá com a minha mãe, a minha cabeça pousada na barriga dela, os meus pés nas pernas do meu pai. Eles abraçados e eu a abraçar o meu irmão, enquanto lhe cantava cantigas de amor. Lembro-me de ir com eles escolher a roupinha do bebé, a primeira para ele vestir. Lembro-me do enorme amor que todos sentíamos por ele. E percebo, agora, que no momento em que os médicos perderam os batimentos do bebé, no momento em que tudo se complicou, a minha mãe morreu para o salvar. Os médicos falam em hemorragia interna, mas não. Amor. Puro, vermelho vivo cor de sangue, cor de hemorragia interna. Amor. Ele não nasceu vermelho de amor, nasceu azul de sofrimento. Mas recuperou. Eles tentaram tudo para a trazer de volta mas já não dava. Amor. Foi todo para ele, para ele viver.
Agora eu sei que foi isto. Agora que estou aqui, que tenho a minha filha nos braços, agora depois de doze horas de trabalho de parto. Agora que estamos só eu e ela é que eu descobri.
Amor. A minha mãe morreu por amor. E eu, hoje, renasci.

8 aplausos:

Vanessa disse...

Não evitei soltar um lágrima Guigui. Gostei tanto tanto :)

Beijinho muito grande querida!

Flash disse...

Desculpa a intromissão neste teu espaço, mas hoje não posso deixar de comentar ainda que o faça com uma única palavra:

LINDO!!!

baby disse...

muito obrigada!

Sonia&Mi disse...

GOSTEI TANTOOOO!
Obrigado por partilhares, amei!

Luz de Estrelas disse...

Talve daqui a três horas consiga parar de chorar.

Helena disse...

Que texto lindo... E que coincidência. Ler um texto destes a menos de 24h de assistir pela primeira vez a um parto. O amor de mãe é uma força mágica, impressionante! ***

Helena disse...

Acho que tudo depende dos médicos... Ontem mesmo eu sendo aluna no hospital o pessoal foi tudo muito simpático mas quando chegou a altura de seguir para a cesariana uma enfermeira disse-nos "agora vão-se ali sentar e nós avisamos quando a bebé nascer". A minha professora é que entretanto chegou para fazer a cesariana e disse que iamos la para dentro tb! Depende muito de quem está lá na altura... mas como a mãe trabalha no hospital deve conhecer bem os médicos e ser estudante de medicina é sempre uma vantagem nessas coisas :)

Helena disse...

Ah. E fui procurar ao site da fac a tua amiga e sim, acho que já a vi por lá, reconheci a foto :) Mas não a conheço..